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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Cubano vaiado por brasileiros foi símbolo do Mais Médicos

 
Vaiado logo depois de desembarcar no Brasil no final de agosto, o médico cubano Juan Delgado declarou que não entendia a hostilidade, pois ele e os colegas vinham para ocupar lugares onde os médicos locais não queriam ir e que não tirariam o emprego de ninguém.
Quatro meses se passaram desde o incidente e agora Delgado está morando em Zé Doca, pequeno município do Maranhão. De lá, a cada dia vai visitar um dos vários distritos sanitários indígenas espalhados pela região. Ele conta com a ajuda de uma enfermeira que “traduz” os problemas trazidos pelos índios. “É muito interessante trabalhar com a comunidade indígena. A comunicação é complicada, mas as enfermeiras me ajudam”.
Especializado em clínica geral e atuando há 19 anos, ele confessa o que pensou ao passar pelo que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, chamou de “corredor polonês da xenofobia”: “Eu me senti muito perdido, pois nunca havia passado por algo assim na vida. No meu país, isso não acontece”.
Ao ser questionado se pensou em desistir, ele diz que não: “Naquele momento era uma minoria. Eles me chamaram de escravo, mas não me importei. A escravidão foi abolida em Cuba em 1868, não somos nem temos escravos por lá”.
Mais Médicos
No dia 8 de julho, em meio à onda de protestos que assolou o país, o Ministério da Saúde lançou o programa Mais Médicos, com o objetivo de melhorar a assistência em regiões carentes do Brasil. Meses antes, o então chanceler Antonio Patriota já havia sinalizado a intenção de trazer médicos de Cuba, o que gerou uma série de críticas. Ao lançar o programa, foi reforçado o fato de que profissionais brasileiros teriam prioridade nas inscrições, mas, no fim do ano, o balanço oficial do Mais Médicos mostrou que o plano inicial do governo foi concretizado: dos 6.600 inscritos no programa, 5.400 são cubanos.
Se o Mais Médicos pode ser considerado uma das principais notícias do ano na área de Saúde, há uma imagem que pode ser considerada a marca do programa: a do cubano Juan Delgado, 49 anos, um dos profissionais hostilizados em um protesto organizado pelo Sindicato dos Médicos de Fortaleza, no dia 26 de agosto. A forma como a classe médica recepcionou os estrangeiros — muitos cubanos foram chamados de escravos — fez com que muita gente passasse a apoiar o programa. Ao sancionar a Medida Provisória que instituiu o programa, a presidente Dilma Rousseff chegou a pedir desculpas a ele.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) afirmou, desde o início, que não era contra a vinda de médicos de fora do país, apenas contra a admissão de profissionais sem a revalidação do diploma, o Revalida. Neste ano, por exemplo, o exame teve o pior percentual de aprovação na primeira fase da avaliação, 9,72%. Dos 1.595 candidatos que fizeram a prova, 155 passaram para a segunda etapa. Para defensores do Mais Médicos, a prova traz questões que não têm muita relevância para quem vai atuar na atenção básica, como é o caso dos inscritos no programa. Já segundo representantes do CFM, a avaliação traz perguntas básicas, o que sugere uma falta de preparo de muitos estrangeiros que, agora, passam a atuar no Brasil.
Além da formação, outros aspectos do Mais Médicos foram alvo de críticas, como a falta de vínculo empregatício (e benefícios como 13º salário, por exemplo) dos inscritos, que vão trabalhar por apenas três anos e não podem atuar fora do programa. Outra questão foi o acordo firmado com a Opas (Organização Panamericana de Saúde), que determinou uma remuneração diferente para os cubanos. Assim como acontece em outros países para os quais a ilha envia médicos, eles não ficarão com a bola integral, de R$ 10 mil — uma parte significativa do valor fica com o governo cubano.
Delgado, que antes do Brasil, atuou por duas ocasiões no Haiti, confessa que se deparou com doenças que só conhecia em livros de medicina: “O que mais me espantou até agora foi atender uma grávida que está com esquistossomose (infecção causada por um trematódeo, em nosso país a espécie mais comum é Schistosoma mansoni). Não temos essa doença em Cuba”.
Família
Casado e pai de uma adolescente de 16 anos, ele admite sentir saudades da família e que pretende visitá-la quando tirar férias, após 11 meses de trabalho. Também confessa que após os três anos que irá atuar no Brasil, pretende voltar definitivamente para Cuba.
Ao ser questionado sobre como é pago, assume que recebe uma parte dos R$ 10 mil pagos a todos que participam do programa Mais Médicos e que sua família recebe o salário que ganharia se estivesse atuando em seu país. Porém, quando ouve que parte do salário vai para o governo cubano, ele rebate: “O dinheiro não vai para o governo. Vai para o país para que possa comprar, entre outras coisas, alimentos. Creio que você saiba que Cuba sofre de um embargo há mais de 50 anos”.
Ele se refere ao embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos em 1962, pelo qual é proibido que filiais de companhias norte-americanas comercializem produtos a valores superiores a US$ 700 mi por ano. Trata-se de um dos embargos mais longos da história e é um assunto muito controverso e condenado pelas Nações Unidas.
Fonte: UOL Notícias