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terça-feira, 15 de maio de 2012

Pedido de proteção

Casal morto e mais 28 aparecem em lista de ameaçados no Pará
 Intimidações começaram quando o casal denunciou madeireiros que avançavam em sua comunidade para extrair espécies nobres de madeireira
Intimidações começaram quando o casal
 denunciou madeireiros que avançavam
 em sua comunidade para extrair
 espécies nobres de madeireira
Na realidade, o nome de José Cláudio constava na lista de marcados para morrer desde 2001, como aponta a coordenação nacional da CPT. O advogado José Batista, da CPT/Marabá, município próximo a Nova Ipixuna, assegura que a publicação do caderno da CPT com a relação das lideranças de trabalhadores rurais de todo o País é entregue oficialmente ao Ministério da Justiça e repassado também aos governos estaduais, onde há pessoas ameaçadas.
O caderno de 2010 foi publicado dia 18 de abril deste ano e entregue para o representante do Ministério da Justiça com pedido de proteção. Em todo o País, a CPT listou 125 ameaçados de morte por conflitos no campo em 2010. O caderno contendo os nomes dos ameaçados de morte e os locais dos conflitos, com a relação dos 30 marcados para morrer no Pará foi repassado também ao governo paraense. A relação segundo Batista é elaborada há mais de 20 anos, mas desde 2007 é oficialmente entregue aos governos federal e dos Estados. “Todos se omitiram”, denuncia o advogado da CPT.

O medo impera na reserva extrativista
O casal executado tinha um filho em comum, que fica órfão aos 15 anos. Mas, também deixa outros filhos, que tiveram de casamentos anteriores. A família chora a morte do casal e também se sente ameaçada. A irmã de Maria, Cláudia Santos, pede justiça, mas acha que vai ser difícil continuar a luta do casal ambientalista. Ela acredita que após a polícia sair da área, as ameaças poderão voltar e a vida na reserva extrativista poderá ficar cada vez mais perigosa. Irmãos e o filho dos casal ainda não sabem se permanecem no local.
Outros dois trabalhadores da reserva extrativista Piranheira estão ameaçados de morte, segundo dados da CPT. José Martins e Francisco Tadeu da Silva, são colonos da área e trabalhavam com o casal de ambientalistas. No começo deste ano, eles tiveram suas casas queimadas por pistoleiros, depois de sofrerem ameaças de morte por se recusarem a deixar a reserva. Após a mobilização de Maria e Zé Cláudio, a comunidade da reserva construiu novas casas para suas famílias e os dois permanecem na área. “O nosso temor é que agora eles são mais os visados da reserva. Enquanto houver polícia na área e imprensa no local estará tranqüilo, após baixar a repercussão da notícia, a tendência é ocorrer como em Anapu, onde as ameaças aos trabalhadores rurais continuam”, afirma Batista.
Herdeiros de Chico Mendes
A região de Nova Ipixuna mantém uma das poucas reservas de castanhais que ainda resta no sul paraense. A sanha madeireira de derrubar a floresta para exportar o produto e transformar o restante em carvão se acentuou com a criação do pólo guseiro na região, que utiliza restos de madeira para abastecer os fornos das usinas de ferro-gusa em Marabá. Na reserva, Maria e José Cláudio, juntamente com seus familiares e os assentados da área, trabalhavam com o extrativismo de andiroba, semente de onde se extrai o óleo, assim como a castanha-do-pará, cupuaçu e outras frutas nativas da Amazônia. A castanheira é uma árvore frondosa de madeira cobiçada pelas serrarias da região. Galhos e sobras da madeira são utilizadas pelos madeireiros para fazer carvão para fornecer as guseiras.
O projeto do assentamento onde o casal foi executado foi criada em 1997 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso com 22 mil hectares, onde residem cerca de 500 famílias. Lá vivem, além dos extrativistas, ribeirinhos que vivem à margem esquerda do rio Tocantins, em frente ao lago da hidrelétrica de Tucuruí. Desde 1996, Maria e Zé Cláudio lideraram o movimento para formação da reserva. Eles integravam o Conselho Nacional de Seringueiros (CNS) e eram muito envolvidos na luta pela formação de reservas extrativistas na Amazônia, inclusive, mantinham ligações com lideranças dos outros Estados, Amazonas, Acre, Amapá.
“Eles eram destemidos, paravam caminhões de madeireiras que entravam na reserva para roubar madeira, fotografavam e denunciavam ao Ibama, Ministério Público, Polícia. Eles eram incansáveis”, conta o advogado da CPT, comparando a luta do casal de ambientalistas paraenses ao maior ícone da luta pela floresta na Amazônia, o acreano Chico Mendes, também assinado na década de 1980. Infelizmente, lamenta Batista, todos se omitiram. “Eles faziam o papel do Estado, mesmo com a arma sendo apontada para eles”, complementa José Batista.
O diretor da CNS no Pará, Atanagildo Matos, lamenta a perda dos companheiros de luta: “Eles nos deixam uma lição, que é o ideal dos extrativistas da Amazônia: permitir que o povo da floresta possa viver com qualidade, de forma sustentável com o meio ambiente”.Fonte: Racismo Ambiental